Resposta direta: sair do CLT para empreender com engenharia elétrica dá certo quando você resolve quatro coisas, nesta ordem: ter de onde vir o primeiro cliente, ter dinheiro para os meses em que nenhum serviço fecha, escolher um único canal para conquistar clientes em vez de tentar aprender tudo de uma vez, e migrar aos poucos para os serviços que pagam melhor pelo seu conhecimento. O diploma resolve a parte técnica. A transição exige aprender como um negócio funciona.
Eu sou o Juliano Rodrigues, engenheiro eletricista. Em 2018 eu trabalhava como eletricista com carteira assinada e ganhava R$ 2 mil por mês. Saí, abri a empresa no mesmo ano e comecei prestando serviços elétricos enquanto cursava a faculdade. Hoje a Instel Service é uma empresa de consultoria elétrica, especializada em laudos de demanda e de qualidade de energia, que fatura seis dígitos por mês com duas pessoas. Este guia conta o caminho na ordem em que as decisões apareceram, incluindo o que eu fiz errado.
Por que eu quis sair do CLT?
O que mais me frustrava não era o salário. Era estar preso de segunda a sexta: se eu precisasse resolver qualquer coisa durante a semana, não podia. Na faculdade eu pensava sempre a mesma coisa: eu não estou cursando engenharia para passar a vida oito horas por dia dentro de uma empresa.
Esse incômodo é o ponto de partida, mas sozinho não é motivo para pedir demissão. A comparação com números está em Vale a pena trocar o CLT pela empresa própria na engenharia elétrica?.
Preciso estar formado para começar?
Para começar a empreender, não. Para assinar como engenheiro, sim. Eu abri a empresa em 2018, me formei em engenharia elétrica em 2021 e me registrei no CREA em 2022. Nos primeiros anos a empresa prestava serviços elétricos; o trabalho de engenharia veio depois do registro.
Começar antes teve uma vantagem: quando eu pude assinar como engenheiro, já sabia conquistar cliente, cobrar e entregar.
Os laudos só entraram na empresa depois de 2022, quando eu já tinha o registro.
De forma resumida, a divisão é esta:
| Quem | O que pode fazer | Onde está a regra |
|---|---|---|
| Eletricista | executar instalações; não assina projeto nem laudo | não tem conselho profissional; a NR-10 exige qualificação e treinamento |
| Técnico em eletrotécnica | projetar e dirigir instalações com demanda de até 800 kVA | Lei 13.639/2018 e Resolução CFT 074/2019, com registro no CRT |
| Engenheiro eletricista | projetos, laudos, perícias e direção de obras sem esse limite, com emissão de ART | Lei 5.194/1966 e Resolução Confea 218/1973, com registro no Crea |
De onde vêm os primeiros clientes?
De quem já conhece você. Eu comecei avisando todo mundo que eu conhecia que fazia serviços elétricos. Um indicou o outro e o boca a boca começou a andar. Só depois eu fui estudar marketing e fiz um site.
A ordem importa: primeiro a rede de contatos, que não custa nada e responde rápido; depois os canais que dependem de estudo e de tempo.
O passo a passo fica no pilar Marketing e Vendas. Para saber se a sua cidade tem procura pelo que você pretende vender, veja Como saber se existe demanda por engenharia elétrica na sua cidade.
Qual é a hora certa de sair?
Eu saí sem esperar ter tudo pronto, e funcionou, mas não foi confortável. No terceiro mês eu já tirava mais do que os R$ 2 mil do emprego. Com seis meses eu pagava as contas e sobrava um pouco.
Anos depois eu entendi o tamanho da diferença: um laudo de instalações elétricas começa acima de R$ 2 mil. O que eu levava trinta dias de trabalho para receber como empregado, eu passei a poder fazer em um dia.
Os critérios para marcar a sua data estão em Qual é a hora certa de pedir demissão para abrir uma empresa de engenharia?. Se a ideia é começar em paralelo ao emprego, veja Posso fazer projetos e emitir ART por fora enquanto ainda sou CLT?.
Quanto dinheiro eu preciso guardar antes?
Eu saí sem nenhuma reserva, e não recomendo. Houve meses em que o dinheiro acabou. Sempre aos 45 do segundo tempo eu fechava algum serviço, mas isso é sorte somada a esforço, não é plano.
A reserva serve para comprar tempo: é ela que permite recusar um serviço ruim e esperar o bom. Dois cálculos ajudam:
- o que juntar antes de sair — Quanto de reserva financeira ter antes de sair do CLT;
- o que a empresa precisa pagar todo mês para substituir férias, décimo terceiro e FGTS — Quanto valem os benefícios do CLT e como substituí-los.
Quanto dá para ganhar no começo?
No primeiro ano eu faturava perto de R$ 10 mil por mês. E mesmo assim havia meses em que eu pagava as contas e ficava sem dinheiro.
Essa é a primeira lição financeira de quem sai do emprego: faturamento não é o que sobra. Do valor que entra saem material, deslocamento, impostos e a cobertura dos meses fracos. Dez mil de faturamento não são dez mil de salário.
O detalhamento está em Quanto ganha um engenheiro eletricista por conta própria no começo?.
Meu maior erro: tentar aprender tudo ao mesmo tempo
Antes de sair, eu tracei um plano de dois anos. A ideia era aprender tudo sobre o negócio de uma vez: conquistar cliente, me posicionar no mercado, marketing digital. Deu errado, porque era coisa demais para aprender ao mesmo tempo.
As coisas só começaram a andar quando eu foquei em uma coisa só: o canal de aquisição, ou seja, o caminho por onde o cliente chega. O ajuste mais importante dessa fase foi entender como um negócio funciona, em vez de colecionar técnicas soltas.
Para transformar isso em ação, use o Plano de 90 dias para sair do CLT e abrir a operação. Os outros tropeços comuns estão em Quais erros derrubam o engenheiro que sai do CLT para empreender.
Como eu cheguei ao serviço que realmente paga bem?
Fazendo primeiro o serviço mais difícil. Eu executei muita instalação elétrica antes de perceber que a parte de documentação era mais tranquila e rendia um bom dinheiro com menos desgaste.
Meu primeiro cliente de laudo veio de dentro da carteira de instalações. Eu não sabia, mas há laudos de instalações elétricas que as empresas são obrigadas a ter por causa da NR-10, a norma de segurança em eletricidade. Quando enxerguei isso, comecei a oferecer o laudo para quem eu já atendia. Uma coisa puxou a outra: dos laudos de instalações eu fui para os laudos de demanda elétrica e de qualidade de energia, que são o centro da Instel Service hoje.
A referência é o item 10.2.4 da NR-10: estabelecimentos com carga instalada superior a 75 kW devem constituir e manter o Prontuário de Instalações Elétricas, que reúne, entre outros documentos, os registros das inspeções e medições do sistema de proteção contra descargas atmosféricas e dos aterramentos.
Esse é o texto em vigor, alterado pela última vez em 2019. Em junho de 2026 o Ministério do Trabalho publicou a Portaria 737, com uma nova redação da NR-10 que passa a valer em junho de 2027. Quem trabalha com laudos precisa acompanhar essa mudança.
A lição vale para qualquer especialidade: o melhor serviço para vender quase sempre está escondido dentro dos clientes que você já tem.
Preciso de uma equipe grande?
Não, e eu aprendi isso do jeito caro. Eu cheguei a ter 15 funcionários e, nessa época, faturava muito mais do que a empresa fatura hoje. Só que era tanto retrabalho, tanto imposto e tanto encargo que eu acabava ficando sem dinheiro.
Foi quando decidi buscar outra coisa: liberdade para estar com a minha família, uma boa margem sobrando e flexibilidade. Encontrei isso em um conceito que vem dos Estados Unidos, o da empresa de uma pessoa só, que eu adaptei para a engenharia no Brasil e chamei de OPBE: uma empresa enxuta, apoiada em tecnologia, inteligência artificial e agentes que cuidam da aquisição de clientes, do acompanhamento das propostas e de tarefas que antes exigiriam cinco ou seis pessoas no time.
Hoje somos dois: o Jimmy, que está comigo há alguns anos e fica à frente da operação, e eu, que cuido da estratégia e dedico a outra parte do meu tempo à comunidade.
Em 2026 decidi passar essa estrutura para outros engenheiros. Acrescentei ao CNPJ, que já tinha a atividade de engenharia, a atividade de treinamentos, e criei a OPBE: uma comunidade de empreendedores reais que estão escalando seus negócios e ganhando previsibilidade.
Faturar mais não é o objetivo. O objetivo é o que sobra e o tempo que você tem.
E a parte de CNPJ, CREA e impostos?
Eu abri a empresa no mesmo ano em que saí do emprego. A formalização é necessária, mas ela não traz cliente: quem traz cliente é a sua rede e o seu canal de aquisição.
Dois pontos que eu gostaria de ter sabido antes:
O registro da empresa no CREA é separado do seu. Eu tinha o meu registro de pessoa física e achava que bastava. Não bastava: a empresa que presta serviços de engenharia para terceiros também precisa de registro próprio. Eu descobri isso quando recebi uma multa do CREA. A regra está no artigo 59 da Lei 5.194/1966, na Lei 6.839/1980 e na Resolução Confea 1.121/2019, que pede a indicação de pelo menos um responsável técnico pela empresa.
Engenheiro não pode ser MEI. As ocupações permitidas ao MEI são definidas pelo Comitê Gestor do Simples Nacional, e as profissões intelectuais regulamentadas, como a engenharia, ficam de fora. O Sebrae cita o engenheiro entre os exemplos. Quem vai prestar serviços de engenharia precisa de outro formato de empresa.
O formato da empresa e o regime de impostos mudam conforme o serviço e o faturamento. Decida isso com um contador antes de abrir o CNPJ.
O passo a passo completo fica no pilar Empresa de Engenharia Estruturada.
Minha linha do tempo
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 2018 | Saio do emprego de eletricista (R$ 2 mil por mês), abro a empresa e começo com serviços elétricos por indicação |
| 3 meses depois | Já ganho mais do que no emprego |
| 6 meses depois | Pago as contas e sobra um pouco |
| 2021 | Formatura em engenharia elétrica |
| 2022 | Registro no CREA; a empresa passa a fazer laudos |
| 2026 | A empresa passa a incluir a atividade de treinamentos e nasce a comunidade OPBE |
| Hoje | Instel Service: consultoria elétrica, duas pessoas, faturamento de seis dígitos por mês |
O caminho em ordem
| Passo | Decisão | Onde aprofundar |
|---|---|---|
| 1 | Vale a pena para mim? | Vale a pena trocar o CLT |
| 2 | O que eu perco ao sair e quanto isso custa? | Quanto valem os benefícios |
| 3 | Existe demanda na minha região? | Demanda na sua cidade |
| 4 | Posso começar em paralelo ao emprego? | ART por fora sendo CLT |
| 5 | Quanto preciso guardar? | Reserva financeira |
| 6 | Quando eu saio? | A hora de pedir demissão |
| 7 | O que faço nos primeiros 90 dias? | Plano de 90 dias |
| 8 | O que eu devo evitar? | Erros de quem sai |
Perguntas frequentes
Dá para empreender com engenharia elétrica sem reserva financeira? Dá, eu fiz isso, mas passei meses sem dinheiro. Se você puder escolher, saia com reserva.
Quanto tempo leva para ganhar mais do que no emprego? No meu caso, três meses para passar o salário e seis meses para pagar as contas com folga. Eu ganhava R$ 2 mil; quem sai de um salário maior leva mais tempo.
Preciso escolher um nicho antes de sair? Não antes de sair, mas antes de crescer. Eu comecei com instalações em geral e fui estreitando até os laudos de demanda e de qualidade de energia.
E se o meu plano der errado? O meu deu. O que salvou foi parar de tentar aprender tudo e focar em um canal de aquisição.
Preciso contratar para crescer? Não necessariamente. Com 15 funcionários eu faturava mais e sobrava menos. Hoje a empresa funciona com duas pessoas.
Meu registro no CREA vale para a minha empresa? Não. O registro do profissional e o registro da empresa são separados. Eu fui multado por não saber disso.
Próximo passo
Saber o que fazer é metade. A outra metade é não fazer sozinho. A OPBE reúne engenheiros empreendedores que estão no campo de batalha todos os dias. Para quem quer profundidade e direção para sair do emprego e construir a sua empresa de engenharia, a comunidade costuma ser o divisor de águas.